A música portuguesa nas redes sociais

Uma forma de abrir as portas do palco aos músicos portugueses André Coelho acaba de comprar uma guitarra eléctrica, mas o seu gosto pela música não é recente. Ganhou um interesse especial por ela que tem vindo a crescer, acompanhado pelo aumento gradual da colecção de álbuns e CD’s que guarda numa caixa de plástico em cima da secretária. Decidiu então que quer ser mais do que outro fã “comum”. O André quer fazer a sua própria música e dá-la a conhecer ao mundo. Hoje em dia, isso está cada vez mais à disposição do utilizador comum. A única coisa de que precisa é um instrumento, ligação à Internet, e para lá disso, paciência, dedicação e gosto pela música. Quer transformar um hobby em algo mais e as redes sociais podem ser o caminho para o conseguir.
As redes sociais dão frutos
As redes sociais modificaram a forma como olhamos para a Internet e a forma como comunicamos online. A partilha de vídeos, músicas, textos, tornou-se comum com sites como o YouTube, MySpace, Twitter ou Facebook, permitindo a todos mostrar as suas criações. As bandas de música já se aperceberam da utilidade das redes sociais para difundirem música ou vídeos recentes, manterem o contacto com a comunidade de fãs ou darem novidades acerca da actividade do grupo.
Para além disso é uma forma de ganharem visibilidade e conseguirem potenciais contactos profissionais. As redes sociais funcionam como uma teia de ligações entre pessoas e uma música pode ficar conhecida literalmente do dia para a noite. O trabalho de um grupo musical pode beneficiar bastante do tipo de amigos que tenha no MySpace ou no Facebook. Até porque uma música pode espalhar-se pela rede num efeito quase similar ao de uma bola de neve. E quanto mais pessoas conhecerem essa música e a derem a conhecer aos seus amigos, maior visibilidade vai ter. Um ponto importantíssimo que os grupos portugueses não devem ignorar. E não ignoram.

Vários músicos internacionais começaram a carreira na Internet, distribuindo o seu trabalho pelas redes sociais. A cantora sueca Lykke Li deu os primeiros passos na música através do MySpace quando “captou a atenção de bloggers internacionais no início da década de 2000 com um conjunto de singles cativantes disponibilizados na sua página do MySpace”, informa o site Allmusic.com. O seu primeiro álbum - Youth Novels - acabou por ser produzido pelo conterrâneo Bjorn Yttling (membro dos conhecidos Peter, Bjorn And John) e saiu em 2007. Foi bem recebido pela crítica e estabeleceu a sueca como um dos nomes mais promissores da música europeia.
Mas tal como Lykke Li, outras bandas conheceram o mesmo sucesso com a Internet. Os Arctic Monkeys gravaram alguns demos que ganharam popularidade na rede, num sistema quase de “boca-a-boca” e, mais recentemente, Ellie Goulding transformou-se numa das favoritas da blogosfera com músicas como Starry Eyed a receberem atenção internacional. Portanto, se é possível que nasçam casos de sucesso nas redes sociais, porque não há-de a música portuguesa beneficiar igualmente dela?
As redes em português
A*L*F*

Os A*L*F* nasceram em 2005 como uma banda a dois. De acordo com o grupo “os dois irmãos Morgado (João Morgado e Pedro Morgado) pegaram nos instrumentos que tinham em mão (bateria, guitarra e theremin, um instrumento musical electrónico tocado sem contacto pelo músico) e começaram a fazer música em português”. Durante três anos foi essa a sua composição, mas no ano passado juntaram-se outros dois elementos: Bernardo Silva no baixo e sintetizador e André Bispo na guitarra e Lap Steel, uma guitarra de aço.
Os quatro A*L*F* afirmam que não têm “uma meta realmente definida” mas que procuram fazer de tudo “para chegar o mais longe possível, privilegiando sempre a originalidade e a qualidade do projecto”. Nesse sentido, atingiram um dos seus maiores objectivos em Fevereiro deste ano, quando foram para estúdio gravar o EPAmor Lança Farpas . Um dos passos que muitas bandas jovens ou recém-criadas ambicionam conseguir fazer um dia no futuro.

Basta uma busca pelo MySpace para descobrir milhares de grupos ou músicos individuais que ambicionam conseguir um dia colocar o seu nome nas bocas do mundo. Para isso, hoje em dia, pode apenas ser necessário colocar o seu nome a rodar nas bocas da Internet. As redes sociais têm esse poder; o de conseguirem transformar um simples projecto de garagem num projecto mundial. E enquanto antigamente estas bandas tinham que se sujeitar aos caprichos das editoras discográficas para conseguirem passar a sua música para o exterior, agora conseguem um feedback quase imediato do seu trabalho. No mundo das redes sociais, as músicas (tal como as notícias, os textos ou os vídeos) recebem comentários e críticas prontamente das comunidades em que estão inseridos. E são hoje em dia essas comunidades que podem ditar o sucesso ou o desaparecimento de um grupo musical. É muito fácil um simples mp3 ou profile de MySpace ficar esquecido por baixo de pilhas e pilhas de outros milhares de ficheiros ou perfis.
“Redes sociais como o YouTube e, em especial, o MySpace, que é muito frequentado por músicos, são fulcrais para expor o trabalho realizado pela banda. No caso do MySpace, proporciona acesso a músicas compostas pela banda, enquanto o YouTube destina-se a partilhar tanto videoclips, como actuações ao vivo”, explicam os A*L*F*. As redes sociais ao serviço das bandas.
O Movimento Alternativo Rock

Tendo em conta o número de bandas amadoras que se podem encontrar no MySpace ou o número de vídeos de cantores amadores no YouTube, os músicos portugueses já compreenderam os benefícios que as redes sociais podem ter no seu futuro na indústria. Estas, para além de permitirem partilhar músicas e videoclips, têm sido muito úteis aos A*L*F*, pois “permitem proporcionar um contacto mais facilitado com os fãs e seguidores da banda e uma óptima forma de promover todo o tipo de eventos, desde concertos até ao lançamento de discos”, dizem. Para além disto, a banda fala ainda de concertos ao vivo através da Internet com “transmissões broadcast live das actuações da banda”, algo que têm “testado com a ajuda do Movimento Alternativo Rock”.
O Movimento Alternativo Rock (MAR) tem como ambição defender e promover a música alternativa portuguesa. “No MAR juntam-se as subtilezas de quem olha em seu redor. Registam-se sons das ruas de Esposende, de Lisboa, de Mação, do Bairro alto, da Moita, do Algarve, de Santarém e do interior urbano ou campestre de cada cabeça e coração”, descreve o MAR no seu blogue oficial. No blogue, anunciam concertos, fornecem downloads gratuitos ou, no caso dos A*L*F*, por exemplo, anunciam à comunidade o lançamento de um novo EP ou LP. Para além disso, fornecem uma página onde podem ser acompanhados concertos ao vivo. O Movimento explica: “sendo já um apanágio do Movimento Alternativo Rock o experimentalismo e a constante busca de novos meios de promover a nova música nacional, o MAR anuncia a inauguração da sua página de áudio e vídeo streaming on-line ustream.tv (concertos-mar-ao-vivo-on-line)”. Mais uma das armas à disposição dos músicos portugueses para promoverem bandas e concertos.
Oath of Putrefaction

Também esta banda de metal se tem servido das redes sociais para conseguir publicitar o seu trabalho. “Tem sido um bom meio de divulgação para nós, é uma boa forma de dar a conhecer o que temos vindo a desenvolver estes anos na nossa sala de ensaio. A colocação da primeira música proporcionou-nos um maior contacto com outras bandas, músicos, profissionais e o ouvinte que é tão importante neste meio”, explicam os Oath of Putrefaction.
Relativamente recente, o grupo surgiu em 2007, duma fusão de projectos diferentes. Contudo, todos os membros da banda tinham já alguma experiência no mundo da música. Algo que cria algumas expectativas em relação ao futuro do grupo. “Depositamos muito de nós neste projecto e queremos crescer enquanto banda e músicos, há sempre aquele sonho de um dia nos entregarmos totalmente a vida musical podendo fazer a nossa música chegar ao máximo de locais e pessoas possível”.
O alinhamento dos Oath é composto pelos guitarristas JP e André, pelos vocalistas Hugo e Pinheiro, pelo baixista Tiago e pelo baterista Rui.
O grupo português marca como objectivos mais próximo a gravação de “um EP, visto que a nossa primeira música tem tido uma boa aceitação e o feedback tem sido bastante positivo e motivador e entretanto marcar alguns concertos em território nacional”. Os Oath of Putrefaction contam com diversas influências do metal, ao jazz, blues, RnB ou hardcore, nomeando como principais influências bandas como The Black Dahlia Murder, Whitechapel, The Faceless ou Nile.
Os Oath contam 2011 amigos no MySpace e a música “Battle Of Dreams” já foi tocada 753 vezes e no Facebook pode ler-se que “132 pessoas gostam” do grupo. O Facebook também serve como anunciante de concertos, com um evento marcado para sábado, 4 de Setembro de 2010 às 22h00. Para além disso, foram feitas ligações aos perfis do MySpace e do YouTube (onde também foi postada a música).
Para o bem e para o mal, hoje em dia consegue-se traduzir o significado de uma banda em números. Uma das características das redes sociais: mais vale ter centenas ou milhares de “amigos” anónimos, do que não ter nenhum. Isto tendo em conta que um dos inúmeros amigos anónimos pode esconder um contacto importante ou uma ligação inesperada à indústria. E todos os amigos são necessários. Quanto maior a comunidade de fãs, mais publicidade ganha a banda e mais visível se torna no radar da Internet.
As redes sociais representam “uma excelente promoção a baixo custo e de fácil acesso”, como afirmam os Oath, em que é possível “dar a conhecer o que fazemos e chegar a todos que gostam do nosso estilo musical seja em Portugal ou na China em questão de segundos”. A internacionalização da informação permite conhecimentos e contactos com outras partes do globo, que de outra forma seriam de todo impossíveis de efectuar. Sem as redes sociais, o contacto entre fãs e músicos estaria muito dificultado. Uma ligação que contribui para a melhoria da música portuguesa. Os fãs têm à sua disposição uma escolha musical maior e o feedback que transmitem aos músicos permite-lhes estar mais em contacto com os gostos da comunidade.
Uma carreira musical On-Line
Na indústria da música, tal como em todas as áreas, as carreiras constroem-se passo a passo. As redes sociais estão aqui para ajudar a que vários músicos portugueses possam dar o primeiro passo na busca dessa carreira. Os grupos portugueses já compreenderam a utilidade destas redes sociais. O facto de haver milhares de grupos a usar o MySpace, o YouTube, o Facebook, entre outras ferramentas, demonstra como a vontade de mostrar ao mundo a música que praticam. Muitos destes grupos acabam por não fazer carreira para lá daquilo que postam na Internet, mas a grande oportunidade por que esperam pode estar por trás de um perfil.
É por isso que muitos músicos portugueses esperam quando fazem upload das músicas para a Internet. Entre eles encontra-se agora André Coelho e os amigos. Assim que criarem uma banda e fizerem uma música o MySpace vai contar com mais um profile na sua já enorme rede de contactos.




